quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Reflexões de 1° kyu - Marcos Spadetto dos Santos

Por: Marcos Spadetto dos Santos

No primeiro dia de treino estava completamente perdido, era algo que nunca tinha visto, era novo e extremamente complicado. Pela primeira vez, parecia que meu corpo era dividido em partes. Tinha que pensar no movimento dos pés, das pernas, das mãos, dos braços e do tronco. Pra mim era assim mesmo, se pensava em uma parte esquecia a outra.

Agora olhando para trás, penso como conseguia ser assim?? Não sabia se tinha que fazer um tenkan, um irimi tenkan ou sei lá o que. É muito legal treinar com iniciantes hoje e ver que aquilo na minha primeira aula não era uma coisa exclusiva minha.

A parte legal do primeiro treino foi exatamente isso, fazer uma coisa que nunca tinha feito. Quebrar certos padrões mentais, tudo que se faz com a direita, também fazemos com a esquerda. Tudo que se faz pra frente, também se faz para trás. Dá um nó na cabeça, mas depois vemos que vai abrindo nosso campo, nos tornamos mais naturais.

O Aikido me proporcionou falar de mim mesmo como sou, agir como sou. Antes de praticar tinha que manter uma máscara de homem forte, de vencedor. Hoje vejo que desarmo muita gente falando sinceramente o que estou sentindo e que não preciso nadar com todo o cardume, posso dizer não. Não sei bem porque isso aconteceu, talvez seja porque conheci outras pessoas que depois de treinar nos dão um abraço, mesmo suados e não agem como no mundo “normal” onde as pessoas estão cara à cara e dizem: “até mais, um abraço” e simplesmente dão as costas e o tal abraço fica somente na palavra. Falo isso especialmente entre nós homens que temos que manter esta aparência, esse distanciamento. Hoje vejo que posso abraçar sem perder minha masculinidade e vejo que sempre fui assim, mas por algum motivo tinha que manter as “aparências”.

O Aikido me proporcionou aproveitar a vida pela vida. Respirar e dizer obrigado pelo simples fato de estarmos aqui. Ele me proporcionou ser feliz com pouca coisa, porque a vida é assim mesmo, não precisamos ter muito para nos mantermos felizes.

Aprendi a pouco tempo que a vida não é imutável. Acho que é inerente ao ser humano não gostar de mudanças, mas confesso que já estou me acostumando e minha mente está se tornando cada vez mais maleável. Hoje vejo que não se tem somente um ponto de vista. A mesma técnica pode ser feita de diversas maneiras e todas elas certas. Posso gostar mais de um instrutor que de outro, porém respeito as diferenças.

Não desde que comecei a treinar, mas de uns tempos pra cá, acho que porque houve uma mudança de filiação do Dojo e também porque sempre fomos muito abertos a outros Senseis, é que comecei a pensar nas pessoas que passaram por nós e que de um jeito ou de outro ajudaram a formar e construir o que somos atualmente.

O Aikido é muito mais que um simples Dojo, é uma história construída através de pessoas, com suas histórias particulares mas que vem se somando durante todos esses anos para construir o que temos hoje.

Reflexões de 1º kyu - Marco Antonio Ortiz Russel

Por Marco Antonio Ortiz Russel

O ser humano tem dessas coisas: Hoje tender para um lado, amanhã quem sabe o que será. Digo isso não em relação a posturas de ética e princípios, e sim questões de humor mesmo. Felizes hoje, tristes amanhã, contemplativos depois de amanhã. Sempre uma incógnita.

Estabelecer uma preferência com quem se deseja treinar seria como tentar domar seu humor. Planejar como se quer acordar de manhã. Impossível, assim como tabular um perfil de Uke ou Nague com que se deseje treinar.

Para mim isso se alterna todos os dias, assim como meu humor, afinal sou humano e, querendo ou não, absorvo muitas coisas ao longo do dia: umas boas outras nem tanto.

Sempre é bom sentir uma energia diferente. Sempre! Adultos são uma incógnita, nunca se sabe o que virá. Crianças estão sempre dispostas a tudo, e haja fôlego para atendê-las. As mulheres são precisas, cuidadosas, talvez pelo instinto materno, mas não menos vigorosas. Homens mais fortes exigem uma energia a mais, exigem um vigor extra. Enfim, cada um com suas particularidades, com suas singularidades. Todos ótimos para treinar, desde que inseridos no espírito do Aikido. Harmonia com energia.

Quando treino com um iniciante não tem como não lembrar do meu primeiro treino. Todo aquele medo de fazer as coisas erradas, prestar atenção em cada detalhe do que é mostrado, tentando em vão repetir exatamente igual.

Tudo some com o tempo. Percebemos que a perfeição não existe e que nunca teremos o domínio que gostaríamos e isso é bom, pois é justamente o que nos faz continuar treinando: a certeza de evoluir um pouco por vez, um pouco a cada treino.

Sobre minha percepção do meu primeiro treino, não tenho todos os sentimentos ainda registrados, como naquele 5 de maio de 2005, mas uma certeza tenho: fui bem acolhido e algo dentro de mim decidiu continuar.

No inicio eu tinha o Aikido apenas como uma arte marcial diferente, mas com o tempo, conhecendo as pessoas que o praticam, percebi que era muito mais que isso.

Percebi que não bastava entrar no tatame e treinar. Tem a limpeza do dojô, tem o chá a ser feito para ser compartilhado após o treino, tem a troca de experiências vividas, e mais uma série de coisas que vão além do tatame.

O somatório de tudo isso me proporcionou algo de precioso: sinto que evolui como pessoa, como ser humano. Desenvolvi a tolerância, a humildade, o senso de coletividade. .. E às vezes me surpreendo fazendo coisas positivas que antes não fazia. Enfim, cresci.

Sintomas relacionados à insegurança sempre surgem vez ou outra. Tem dias que nos sentimos muito bem, e tudo parece fácil, aí temos uma sensação boa, difícil de explicar, que nos torna capaz de tudo. Às vezes dura pouco, às vezes um pouco mais. Também tem aqueles dias, em que nada deu certo, seu coração está apertado por algo externo ao Aikido e você se julga a última pessoa do mundo a merecer, algum dia, uma faixa preta.

As alternâncias caminham do nosso lado todos os dias. Uma peculiaridade do ser humano: a incrível capacidade de se depreciar.

Felizmente temos os fiéis colegas, que quando percebem algo diferente, nos fazem ver que as coisas não estão tão ruins assim, e que tudo passa. Mostram-lhe que aquele movimento impossível, até que está bom, e que muitas coisas são frutos de sua imaginação e mente excessivamente crítica. Nessas horas temos que nos dar outra chance, levantar a cabeça, respirar fundo e repetir internamente: eu posso.

As mudanças são boas, elas nos fazem ver as coisas por outro prisma. Uma casa nova é um lugar fantástico a ser explorado. Colegas novos são oportunidades ambulantes de conhecer pessoas especiais. Novos instrutores lhe mostram variedades de um mesmo tema.

Enfim, as mudanças são necessárias para não cairmos no comodismo e marasmo da vida. Uma ducha quente é muito agradável, mas um banho de chuva é uma experiência indescritível. Mudanças!

Fujo da violência desde minha infância. Nunca briguei, mesmo sabendo que às vezes tinha certa vantagem sobre a outra pessoa.

Já saí de situações que mesmo diante de um confronto iminente, dialogando foi resolvido, e quando chegava em casa, me perguntava: Porque não dei um soco na cara dele? Nunca tive a resposta. Talvez fosse melhor assim.

Hoje em dia sou tranqüilo, mas de uma maneira diferente. Não me pergunto mais porque deixei de revidar algo, tenho comigo a certeza de que ações como essas, certamente em nada contribuiriam para melhorar o mundo.

Acredito que o Aikido, para mim, traz a paz de espírito que necessito para saber que não preciso provar nada para ninguém. Somente a mim mesmo.

Revidar é fácil, fazemos isso no trânsito, no serviço, na rua, etc... Difícil é absorver o movimento e devolvê-lo sem prejuízo para ninguém. Difícil é ser e dar um bom exemplo a ser seguido.