
Betezui
No Aikido, falamos muito em cortesia. E até treinamos muito isso, no tatame, estamos sempre pedindo por favor, dizendo obrigada, nos desculpando.
Dificil é fazer a ponte entre o tatame e a nossa vida diária.
Cortesia deveria ser um modo de vida. Um jeito de viver que facilita tudo e evita problemas. Uma decisão irrevogável a respeito de como nos comportamos, sem concessões ao mau humor, aos problemas, ao poder que os outros têm de nos fazer perder a paciência e o bom humor. Assim, a cada vez que nos perdemos, podemos voltar mais rápido a essa decisão pontual.
A decisão pela cortesia nos protege de nós mesmos.
Pessoas se afeiçoam a um Dojo de Aikido por motivos diferentes. É um ótimo lugar para se fazer amigos, os amigos do Aikido são leais, nos aceitam como somos, são parceiros. È também uma boa ginástica, ficamos ótimos quando treinamos muito. Dá alguns momentos de relaxamento, desde que o Daniel não esteja por perto (medo!). Boas risadas também acontecem muito no Dojo.
Mas precisamos lembrar, que, antes de qualquer coisa, o Dojo é um local de treinamento. Que não se resume ao tatame. O treinamento continua quando conversamos, na hora do chá, quando trocamos emails, quando sentamos para tomar um mate, quando organizamos eventos juntos.
Nossa mente é traiçoeira, ela agarra as coisas que ouvimos, as coisas que acontecem conosco, e as aumenta perigosamente. Existem basicamente dois tipos de sentimentos aos quais a mente adora se apegar. As coisas boas: assim que passamos por uma experiência positiva, agradável, a mente quer agarrar aquilo e manter, a todo custo, querendo que a experiência se repita para sempre. Como isso é impossível, pois não temos a capacidade de eternizar momentos, ficamos frustrados quando aquele estado de graça não se repete com a freqüência que gostaríamos. E as coisas ruins: quando ouvimos, ou fazemos a experiência de algo negativo, a mente agarra aquilo, e argumenta, aumenta, enraiza. Se alguém nos diz algo que cai mal, criamos todo um processo mental que aumenta perigosamente o que poderia ter sido mais uma bobagem. Trazemos muitas vezes à mente aquele momento, aquelas palavras, fomentamos a raiva dentro de nós, criamos discussões internas enormes, “deveria ter dito isso”, “deveria ter dado um soco no nariz dele”, “ quero que ele queime no fogo mais ardido”, e etc...
O Dojo é o local ideal para observarmos esses estados se alternando, pois vivemos experiências positivas e negativas com freqüência. Não é possível uma pessoa treinar Aikido sem ter esse espírito de mudança e de observação atenta do que se passa no interior e no exterior.
Se me apego aos estados positivos “porque o treino hoje não foi legal como ontem?” estarei frequentemente frustrada.
Se me apego aos estados negativos “ detesto aquele cara”, crio uma situação perigosa para mim e para meus colegas. Pois estamos sempre em contato. O que se passa na minha mente, vai refletir no meu corpo e nos meus movimentos. “Sem querer”, vou acertar um men Uti naquele nariz odioso. Obviamente, acidentes acontecem, não é disso que falo aqui. Estou falando de comportamentos destrutivos que não cabem num Dojo, que se propõe a ser um lugar de treinamento do corpo e do espírito. Claro que , à todo instante, cedemos a esses sentimentos na nossa vida diária, onde temos menos tempo e controle sobre eles. Mas isso não pode acontecer dentro de um Dojo.
As vezes eu acho que esse treinamento é tão complexo, que só deveria ser permitido depois dos 60 anos, quando já estaremos mais suaves e maduros.
Mas daí, faço um treino com crianças, onde acontece cada coisa, e vejo que tudo se ajeita. Com um pouquinho só de boa vontade. E volto a pensar que Aikido é uma boa prática para todas as idades. Não fosse assim, teria de esperar os 60.
Resumindo, para praticar Aikido e pertencer a um Dojo, é absolutamente necessária a cortesia em todos os momentos.
E cortesia tem a ver com muitas outras coisas: saber aceitar o que nos é oferecido, quando vamos almoçar na casa de alguém, por ex, e em vez de ficar reclamando da qualidade dos alimentos, procurar sinceramente apreciar o que está ali.
Dividir a conta, pagar o vinho que tomamos juntos, não constranger as pessoas, não usar da palavra indevidamente, não deixar os outros esperando por nós. Pensar no bem estar dos outros antes do seu.
Cortesia é não deixar emails e telefonemas sem resposta. Em agosto, oficializamos nossa filiação ao Instituto Maruyama. Em poucos dias, recebemos muitos emails de boas vindas dos alunos, eu nunca vi isso no Aikido do Brasil. Pelo contrário, muitas vezes meus emails dirigidos a senseis graduados ficaram sem resposta. Mas quando o líder é educado e cortês, os alunos também o são.
Tivemos recentemente, a honra de receber a visita de Chiquinho Scarpa, o Conde, aikidoista aluno de Maruyama Sensei. Nós, os plebeus, hospedamos o conde num hotel muito simples em Caxias. E ele, que tem 26 empregados para cuidar da casa e das pessoas da família, dorme em lençóis egípcios, viaja de avião próprio; aceitou tudo o que nós lhe oferecemos. Com um incrível bom humor, sinceramente agradecido pelo que pudemos dar a ele. Quando se despediu, no aeroporto, o Chiquinho já estava na sala de embarque, voltou rápido, me chamou, tirou uma jaqueta linda que vestia, colocou nos meus ombros, disse muito obrigado e foi embora correndo.
Fiquei ali, emocionada, sem reação, por alguns instantes, até alguém dizer: ele deixou a jaqueta pra ti? Poucas vezes presenciei um gesto tão afetuoso de cortesia, agradecer dando algo de si mesmo, como a roupa que se está usando, com sua energia e seu perfume.
Usei a jaqueta e adorei. É muito linda, quentinha e macia, bege, de couro e tecido, com o kanji do Aikido bordado em ouro, e mais o brasão da família Scarpa.
Estamos levantando fundos para oferecer um grande almoço às crianças da rede publica que treinam Aikido em Farroupilha e Bento, em novembro. Sou uma pobre professora de Aikido nas escolas, e não sem dor, ofereci a jaqueta para fazermos um leilão e arrecadar fundos.
Repasso, assim, para muitas crianças, esse gesto de cortesia do Chiquinho.
Vai a jaqueta e fica comigo um ensinamento inestimável. Cortesia não tem a ver com riqueza ou nível cultural. Tem a ver com afeto sincero, generosidade e nobreza. Nesse caso, literalmente.
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