quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Reflexões de um iniciante

Por Mateus Panizzon

Mas então. Volta e meia eu me pegava lá no início do Aikido querendo explicação pra tudo. Não explicação explicação, mas aquela explicação de ... Porque isso é assim? Para mim isso ajuda a dar sentido ao que estou fazendo. Típico de acadêmico. E como todo acadêmico tem uma boa parte de cartesianismo, a gente tentava entender as coisas por partes. Até que um dia eu resolvi perguntar para a Sensei... escuta... e o tal do Manual do Aikido? Ela, com muita simplicidade me disse: tah vendo que eu estou falando contigo de frente? Isso é harmônico né? Se eu estivesse falando de costas não seria. E eu falei, é simples assim? Ela disse. É.

Então tá. Sendo assim, me proponho a responder todas as perguntas que me foram propostas, não da forma cartesiana (por partes), mas como um texto bem fluido e conectado, como deve ser um bom movimento de Aikido. Todas as respostas das perguntas do questionário para o exame estão no texto. E como um movimento de Aikido não depende só de mim, procurarei efetuar algumas interações com o leitor. Sim, para o leitor, pois eu não escrevo este texto para mim... quando a gente coloca as coisas no papel, é para os outros lerem... não fosse assim a humanidade não tinha evoluído. E porque se o nague não existe sem o uke é porque não existe escritor sem leitor. E também, porque pessoalmente, eu acho meio que coisa é de louco ficar escrevendo em diário e guardando a sete chaves... uma hora a mãe ou aquele primo sacana descobre e aí meus caros, nem um nykyo salva...

A gente meio que pesquisa um pouco sobre o chão que vai pisar, mas eu não imaginava que essa história de "cair" no Aikido fosse tão predominante. Tá bem, você lê lá ... usar a força do adversário contra ele mesmo, e coisas assim... mas nunca tinha me passado pela cabeça o "cair". Primeiro treino foi aquela coisa... vai aprender a cair. Sim, é tudo o que o cara quer... você entra no Dojo, achando que vai aprender altos movimentos ninja e te mandam ficar caindo... E beleza, eu cai... nem sei quantas vezes eu caí até hoje. Mas sabe o que é legal? Depois de todas as quedas eu levantava, e levantava cada vez melhor. Mais rápido, com mais impulso. Eu, que nunca conseguia me jogar no chão, sempre tive as pernas meio duras, comecei a cair com mais suavidade. E a queda deixou de ser um fim para ser meu meio (ou alavancagem) para retornar mais forte. Sim, parece papo de guru, mas isso coincidiu com um momento da minha vida em que as coisas não estavam necessariamente as mais favoráveis. Pressão de todos os lados, entre projetos, artigos, reestruturações... entre o ambiente altamente político e de muitas injustiças na qual atuo, você é derrubado toda hora. Você é provocado toda hora, direta e indiretamente. E isso por vias até silenciosas. O interessante de atuar num ambiente onde todos são "letrados", é que muitos conhecem os estratagemas e as manobras de poder, os meios para se desequilibrar, dissimular, etc etc. É como se todo mundo já tivesse lido Sun Tzu e Maquiavel e quisesse usar o pior de seus ensinamentos. Mentalmente é desgastante. E é, justamente, no campo mental, que você passa a saber cair e levantar. Ninguém vai levantar a voz contra você. Ninguém vai tentar agredir você. No meu caso, é uma experiência completamente diferente. E, frente a isso, depois de um tempo de Aikido, a gente começa a receber feedbacks... nossa... como você está mais, sei lá, espirituoso este ano... tá lidando melhor com as situações, e a gente vê que tua situação não é a das mais tranquilas. Para quem me conhecia do ano passado, sabe que eu era um cara que tomada direto pastilhas pra úlcera e gastrites. Logo, cair e levantar tem um baita simbolismo inerente.

Então, você já deve ter ouvido por muitas vezes os tradicionais ditados... ah, caiu do cavalo 7, levanta 8, e sei lá, não é? Bom, isso tem um significado para cada um... você pode cair e levantar, mas o teu levantar pode te consumir muita ou pouca energia. Às vezes nem parece ser o melhor. Por vezes é até sedutor ficar no ciclo de auto sabotagem. Mas a repetição dos treinos parece ter incorporado-se a mente, e o teu levantar passa a ser um reflexo. Às vezes ele não acontece no momento exato, mas você sabe que acontece. E quando você chega neste estágio, parece que se descobre uma sensação de liberdade. É isso, cair e levantar, para mim, é liberdade. Cair não é um desprestigio; você não pode levantar depois de levantar. Mas você pode levantar mais alto depois que cai. É meio que nem um gráfico da bolsa de valores. Isso é o que te faz evoluir.

E evidentemente que para um kohai da vida, o que se constrói nos treinos não é trivial. Às vezes a gente se depara com a questão de que... tah, e aí, o que é mais difícil? Tu vê, se a pergunta fosse, naquele momento X, no vácuo, qual foi a tua maior dificuldade, a resposta seria simples. Mas você deve ter percebido que todos estes eventos ocorrem em relação ao tempo, e portanto, creio que como eu, as tuas dificuldades foram mudando de acordo com os meses e as fases da lua. Na verdade a gente meio que enfrenta varias limitações no Aikido. Eu sempre fui um cara de corpo meio inflexível. E continuo sendo, até mesmo porque tenho encurtamento nos músculos na região dos joelhos... por isso que é mais difícil tocar a ponta dos pés e ficar em seiza. E no inicio do Aikido, você tenta vencer as barreiras mais corporais, isso foi o difícil no começo. Fraturei o dedo do pé logo no início, e fiquei uns 3, 4 meses em função... era ruim até para fazer shiko. Até hoje eu sinto ele meio estranho. Às vezes você cai em cima do joelho, e isso te limita mais uns tempos. Mas enfim, depois que teu corpo começa a criar resistência, a tua mente começa a ficar mais alerta, e as outras dificuldades começam a surgir. Enxergo cada vez menos sem óculos, isso tira a concentração. E eu tenho problema de memória. Falando sério mesmo. Não lembro nem o que comi no dia anterior. Às vezes, me dá até angustia de sair do treino não lembrando quais movimentos fizemos. Normalmente não me recordo nem do penúltimo movimento treinado. E passei então a confiar no condicionamento operante. Vai repetindo os movimentos. Parece estranho, mas você começa a senti-los na memória do corpo. Então, no momento, eu não ligo muito para os nomes dos movimentos, até sendo sincero. Quero me dar ao luxo disso, pelo menos agora (ok, para o exame tem que saber de cor...), mas é aquela questão: você não precisa saber o nome das peças do motor para saber pilotar um carro. Para mim harmonia é isso. E acho que não conseguir decorar os nomes dos golpes tem até uma raiz psicológica... durante muito tempo eu era do tipo que dominava os conceitos mas não sabia aplicar... teórico demais. Acho que agora a balança está se harmonizando. É preciso passar por isso. Mas antes que a Sensei se descabele, eu sei a diferença entre um Tenkan, um Irimi Tenkan, um Kaiten e um Irimi Kaiten e um Mae Kaiten. Ah, e entre um Shomen uti ikyo, entre um katate dori shiho nague e entre um shomen uti irimi nague, em omote e ura, sendo esta ultima para mim uma das técnicas mais bacanas, por vários aspectos que não vou discutir agora. Ah sim, e tem o tal de Gyaku e o Ai Hanmi. Eu ainda estou tentando desenvolver alguma técnica mnemônica para não confundir as duas.

E é preciso passar por outros testes também. O teste do tempo. Na minha vida, eu sempre quis ser o mais "jovem à". Aquele que quer o bolo antes de ficar pronto. Que quer ser promovido antes do tempo. E aí, você chega no Dojo, e é o último da linha. Isso foi muito bom para mim. Passei a parar de me comparar com pessoas que tinham 20 anos de casa, e parar de querer me julgar melhor que eles porque sabia mais, fazia mais e era mais novo. Você é o último da linha no mês 1. Você é o último da linha no mês 2 e você está melhor que você mesmo. No mês três, você é o penúltimo da linha, e por uma razão que não sei explicar, você não se acha melhor que o último. Não se acha pior que os Sempais. E nem passa pela tua cabeça em se achar melhor, ainda que em determinados momentos, você perceba as fragilidades deles. Então isso te doutrina a ter paciência. A ter respeito. A dominar teu ego. Se eu pudesse citar o maior benefício do Aikido foi o domínio do meu ego. Volta e meia você se pega querendo que alguém te reconheça, que te chame de bom, que te diga parabéns. Houve momentos que era quase como oxigênio. Talvez este sistema tenha quebrado isso. Morihei Ueshiba dizia: Eu sou um com o Universo e nada mais. Por enquanto eu entendo isso da seguinte forma: você é seu universo e isso significa que você não precisa destes "tapinhas nas costas" para se sentir realizado. E quando você controla seu ego a ponto de não ter mais essa necessidade, você se sente novamente livre.

Mas eu não posso falar sobre benefícios sem falar sobre a metáfora das gravatas. Metáfora das gravatas, você deve estar pensando, só faltava essa. Pois é. Um tempo atrás eu viajei para fora do país, na verdade, foi a minha primeira viagem. Eu estava sozinho, e portanto, é uma experiência interessante para ver como você lida com os desafios quando não tem ninguém a recorrer. Como se tratava de um evento científico, bom, eu precisei levar terno e gravatas. O interessante das minhas gravatas, é que elas já tem os nós pré-preparados pelo meu pai. Você pode inferir muitas coisas (certas e erradas) sobre um cara que tem as gravatas prontas deixada pelos pais. Dai você só coloca ao redor do pescoço e ajusta. Muito bem. No primeiro dia do evento, estava me arrumando; e eu queria usar uma camisa de uma cor e uma gravata que combine - acho legar ficar classicamente elegante. Só que na hora que eu fui apertar o nó da gravata, ele se desfez. Ótimo, o detalhe é que eu não consigo fazer nós de gravata, vis-à-vis minha falta de coordenação, e não dava tempo para fazer outro. Então eu peguei outra gravata pronta, mas depois de ajustado o nó, eu não me senti legal. Não combinava. E daí, eu abri o notebook e acessei a internet, procurando como se fazia nós de gravata, meio na pressão do tempo. E então eu tive meu primeiro choque. Sabe quando você olha um manual de Aikido que tem aqueles desenhos de como você faz um movimento, e mesmo olhando e tentando fazer não dá muito certo? Pois é, o mesmo acontece com as gravatas. Tenta uma vez, tenta duas... não sei porque, não dá. Dai eu coloco novamente a outra gravata, insatisfeito, circulo um pouco pelo quarto, e antes de sair, eu tento mais uma vez. Mas desta vez, eu faço a coisa de um modo um pouco diferente; eu não me preocupo com o detalhe, com o dedo que tem que ficar tantos centímetros, com a altura que tem que estar para dar a volta. Eu simplesmente busco fazer o nó com a mesma abstração que uso quando me concentro para um movimento de Aikido. E por incrível que pareça, parece que você visualiza uma entrada: aquele ponto onde no Aikido você desequilibra o adversário e depois finaliza, é na gravata é o ponto onde você completa o nó e depois ajusta (não quero aqui reduzir o Aikido ao simplismo de fazer nós de gravata, muito longe disto..., mas foi a analogia que surgiu na minha cabeça). Então, se eu pudesse elencar um mais benefício, eu passei a "fazer por minha conta meus nós de gravata", evidentemente, no literal e no figurado, em alguns casos, ainda que haja muito a se fazer.

E quando me perguntam sobre qualidades de um Sempai e de um Kohai, eu fico meio nervoso. Na minha área, a gente estuda perfis. Ah.. qual é o perfil do Líder? Lê de cá, lê de lá, e vê que o Líder é um super herói, pois só tem qualidades boas. Eu penso que é muito errado categorizar alguém. Às vezes é necessário, pois ajuda a gente a analisar dados, mas enfim... eu não gosto de ter um rol de qualidades atribuídas a mim, assim como eu não vejo a Sensei como um rol de qualidades. Ela as tem, mas eu não vejo muito sentido para ficar dizendo.. ela é a) Genuína b) Generosa c) Fala francês, e pessoas que falam francês são trés legais...

E as qualidades variam com o meio que as percebe, assim como a liderança é contingencial. Gostaria de saber se em outros Dojos os Sempais teriam a mesma preocupação e paciência que os Sempais daqui tiveram comigo. Desde os momentos que forçaram demais no movimento e quase detonaram meu pulso, até as vezes que você fica tentando realizar um movimento e não sai, a preocupação e paciência estavam presentes. Em se desculpar, em perguntar se está tudo bem, em ensinar. E a gente retribui isso com os outros, e até mesmo com os próprios Sempais, que volta e meia dão uma descarregada num movimento.

Então, acho meio impróprio criar uma escala de Sempai - Kohai, que nem encontramos nos livros...Sempai > Paciente > Kohai (sinal ">" quer dizer "mais que"). Podemos falar em estágios.. o Kohai pode ser mais inseguro que o Sempai... mas não podemos dizer que todo Sempai é confiante. Pela lógica aristotélica, se afirmamos que todo Sempai é confiante, e encontrarmos pelo menos um Sempai que não é confiante, nossa tese está destruída!

Em síntese, se um Sempai é disciplinado, não quer dizer que o Kohai é indisciplinado; ele só tem que desenvolver mais disciplina ao longo do tempo; não em relação ao Sempai, mas em relação a ele mesmo. E aqui me remento a uma apresentação que o Sensei Maruyama fez no meu primeiro seminário. Ele mostrou que todos temos as qualidades esperadas, mas em níveis diferentes, e é utopia o cara ser "tudo de bom". Não há equilíbrio nisso.

Mas, numa perspectiva mais.. “aikidoística”... Sempai é aquele que já desenvolveu a percepção e a experiência necessária para conduzir o Kohai pelo caminho de desenvolvimento. A gente não vê esse caminho, mas ele existe e só estando nele (acho que os colegas me compreendem) para saber do que se está falando. Um Dojo é como uma escola: um tatame vazio, uma sala de aula vazia. Mas alguma coisa acontece aí no meio que faz com que cada dia você cresça. E nessa interação o Sempai e o Kohai estão mutuamente conectados. Não há um sem o outro. Não há Nague sem Uke. Não há professor sem aluno. E o desenvolvimento de ambos depende disso. Isso quebra a lógica de que ah.. eu estou pagando e quero aprender. É uma relação que vai além do tradicional aluno e professor. Sei lá, eu não tenho resposta pronta sobre isso. Tenho muito ainda que trilhar.

Mas, além disso, como toda atividade física, o Aikido nos transforma. Muita coisa aconteceu; no início melhorei minha flexibilidade, comecei a ter menos sono, tive mais disposição, a gastrite diminuiu... acho que até estou respirando melhor. Mas uma pequena vitória são os rolamentos. Tudo termina em rolamentos. É algo que eu nunca imaginava que faria. Claro que às vezes você vai com o braço errado, cai em cima do joelho... mas é uma superação dos limites do teu corpo.

E a essa altura do campeonato você deve estar pensando: bueno, chegamos ao final do texto. Negativo!. Tudo isso foi uma manifestação até dezembro de 2009. A partir daí eu preciso retornar à questão 1, sobre o cair e levantar. Não seria justo comigo mesmo achar que esta lição foi aprendida e dar esse assunto por encerrado.

Até dezembro de 2009, conforme foi supracitado, deu-se a entender que eu havia aprendido a lição de cair e levantar, e estava lidando melhor com esta situação. Entretanto, uma situação daquelas "da vida" apresentou-se para mim e passei a duvidar desta capacidade que é um dos fundamentos do Aikido.

Antes de entrar na história, devo salientar que esse tipo de decisão de vida eu tomo meio à la japonês. É 8 ou 80. É algo muito bem refletido, muito premeditado, pois é algo que eu quero que aconteça. Que seja certo e preciso. Não tomo esse tipo de decisão "só por fazer"...

Mas eu muito pensei em como divulgar esta história. Afinal de contas, um bom relato necessita de nomes, de fatos e verossimilhança. Senão, é obra de ficção. Talvez eu pudesse criar alguma espécie de analogia, mas desvirtuaria totalmente a proposta, que é mostrar, de forma nua e crua, a história como ela é. Mas como não posso divulgar nomes, ela perde o sentido. Então, por hora eu me reservo de publicá-la. Ela existe, e talvez você que esteja lendo este texto poderá conhecê-la um dia desses, caso nossos caminhos se cruzem.

Entretanto, o contexto desta história não importa. O que importa são os sentimentos. Tente se lembrar como você se sentiu naquele momento da sua vida em que você tinha um sonho. Aquela meta ambiciosa. Aquele momento decisivo que faria sua vida entrar numa nova fase. E por mais que você tivesse tudo planejado, por mais que os ventos parecem estar ao seu favor, e por mais que você se esforçasse para que isso acontecesse, por alguma razão a situação não se concretiza, e surge aquele sentimento de “tudo desabou”. Se você já passou por uma situação de “tudo desabou”, quero que você pare por um momento neste ponto. É exatamente daí que a minha história sobre cair e levantar continua...

Neste ponto, todo o equilíbrio que eu parecia ter desenvolvido até o final de dezembro sumiu. Por mais que olhassem para mim e achassem que estava tudo ok, minha cabeça estava um caos. Uma espécie de guerra mental se desencadeou. Pensamentos começaram a se cruzar (tem várias dimensões complexas na minha cabeça), e enfim... dá para escrever um livro sobre isto.

Vocês devem bem saber, mas eu sou um cara católico. Minha família é católica, e eu trato isso com muito equilibro, sem muito radicalismo. Às vezes as pessoas rezam para Deus e esperam sentadas. Durante todo este processo, eu sempre rezei, mas também me esforcei para que a mudança acontecesse. Abri mão de muitas coisas neste período. Precisei fazer escolhas. Por vezes é fácil ver os caminhos e as avenidas. O difícil é escolher uma delas e saber que depois você não pode fazer o retorno. Depois disso, eu meio que perdi a fé em mim mesmo e em Deus.

Nem natal nem aquela renovada do ano novo (com as clássicas promessas) me fizeram recuperar. Com o estado de espírito contaminado pela “deprê”, no último final de semana de janeiro eu pude dar uma escapada de quatro dias para a praia, e neste período de afastamento, tentei encontrar alguns sinais. Não sei se os sinais sempre estão aí... Muitas vezes a gente simplesmente os acha porque está procurando, chama-se isso de percepção seletiva. E por incrível que pareça, eu tive 3 "iluminações"...

De sexta a domingo de tarde, a praia foi normal, mas sempre permeada de pensamentos negativos. Coitado do meu irmão que teve que ouvir tanta asneira nas caminhadas pela orla. Eu realmente não conseguia mais ver o copo meio cheio. Mas domingo de noite era dia de ir na missa. Eu tinha deixado de ir na missa, mas acabei indo com a família.

Pra falar a verdade, eu normalmente saio do ar quando os padres dão sermão. Afinal de contas, o que eles entendem da vida? Ficam no seminário isolados vários anos, uns tá, fazem lá seu trabalho social... mas quem são eles para me ensinar moral? Ok, não vou entrar na discussão de Igreja, História, padres que fazem besteira, traduções da bíblia etc etc... Só sei que eu estava lá naquele momento, um baita calorão, e eu havia pedido por um sinal, uma perspectiva, um rumo, nem que fosse para um fim.

E eu não me lembro de nada daquele sermão (pra variar), só de uma coisa que foi falada... Faça as coisas com amor. Ou pratique as coisas com amor... não me lembro ao certo. Mas essa é uma frase muito forte. Muito forte mesmo. Fazer as coisas com amor, ou fazer as coisas bem feito diz respeito a você se abstrair do passado e do futuro, e se concentrar no seu agora. No seu momento atual. Não é “fizeste as coisas” ou “farás as coisas”, é faça agora, e bem feito. Já havia ouvido isso em algum momento no Aikido. Ah sim, e pontos para o padre que era de Carlos Barbosa.

Quando esse raciocínio entrou na minha cabeça, o desastre do passado que havia ocorrido e a angustia da falta de perspectiva de um futuro desapareceram. É incrível como a cabeça da gente funciona. O que conta é o que eu faço agora, e se for uma ação simples ou complexa, eu tenho que fazer com vontade. Minha atenção deve focar o momento presente e tão somente ele. Portanto, muita vontade aplicada no momento atual. Não gastar energia revivendo o que já passou ou antecipando o futuro que não se domina.

E no dia seguinte foi minha última oportunidade de ir no mar. Fazia anos que não entrava no mar. E tive mais duas revelações. Como eu havia dado uma caminhada antes, meu corpo estava quente por causa do sol, e entrar no mar frio direto é complicado (bah, mas quanta frescura...). Às vezes é até uma barreira. Mas eu adotei uma estratégia diferente. Ao invés de criar desculpas e não entrar no mar, eu fui entrando aos poucos. Caminha um pouco, pega um pouco de água, vai molhando a cabeça, os braços... e o teu corpo vai lentamente se adaptando a temperatura da água. Afinal de contas também, que pressa eu tenho? Se eu entrar direto em um minuto ou em 10, no fim das contas, eu to na água mesmo. E foi assim... foi como seu eu esteve "curtindo" o processo para que eu atingisse um objetivo, "o entrar no mar de vez". E ao invés de bater de frente com a água fria, eu fui usando a própria frieza da água, que no inicio seria uma barreira, para me juntar à ela. Algo eu também já havia ouvido no Aikido.

E aí que me caiu a ficha. Por que ficar me detonando mentalmente porque eu não atingi o objetivo este ano? Vamos curtindo o processo. Esse curtir vai me trazendo informações, conhecimentos para que eu possa buscar esse objetivo mais para a frente, sob uma nova perspectiva. Ou quem sabe, objetivos diferentes deste. Eu não sou um cara que viaja muito, mas sempre que pude viajar me dei conta de uma coisa. Existe vida além de onde você está. Expanda sua visão de mundo e você terá novas perspectivas e muitos objetivos para curtir todos os anos. Isso você já deve ter ouvido de algum palestrante sério ou falcatrua, ou até lido em algum lugar. Mas o fato de você curtir a escalada e não só o pico da montanha, não sei. Depois do pico, terminou. Você estará lá, vitorioso e sozinho. Uma bela visão por alguns minutos. Mas na escalada que você encontra as pessoas exóticas, passa um frio desgraçado, corre de umas avalanches. O que estou querendo dizer é... curta a sua graduação, não só a formatura.

A terceira revelação veio quando eu entrei de vez no mar. Durante todo este período, eu passei a questionar se eu sabia alguma coisa. Tanto tempo estudando para quê? Parece que você não sabe nada, e pior, que você não sabe ensinar nada. Mas no fim das contas, eu estava nadando, e não nadava há muitos anos. Eu havia esquecido que sabia nadar. Eu não desaprendi. Ou seja, eu sempre tive esse conhecimento, e precisei apenas que existisse no contexto certo para aplicá-lo. A insegurança sobre o fato de eu saber ou não havia desaparecido. As vezes você não acredita em você mesmo pois pensa que não detém certos conhecimentos ou habilidades. Talvez a questão não é que você não tenha. Talvez a questão é que você precise estar no lugar certo para que ela se manifeste. Coloque-se à prova. Isso, em algum momento também ouvi no Aikido.

Então eu devo a esse final de semana tudo isso. A demonstrar que mesmo depois da queda mais feia dos últimos anos, eu me levantei. E a semana seguinte foi de fazer bem feito o que precisava ser feito naquele momento. Fazer bem feito só não tecnicamente, mas no sentido de você querer bem aquilo que está sendo feito. De ir fazendo o que os gringos chamam de “blend in”. Ir se misturando ao contexto. Fazer parte dele. Trocando energias. Escrevo para vocês, na forma sobre a minha lição de vida sobre o cair e levantar. Situações as quais vocês já devem ter vivido bem mais vezes do que eu e em contextos bem mais graves. Creio que aqui não se trata de resgatar esta minha ”queda” nem as suas tantas “quedas”, caro leitor. Cada história é uma situação bem singular da vida da pessoa, mas é valido a gente expor as estratégias que tomamos para vencer esta situação, onde muitas vezes, a situação, é a gente mesmo. Muitas das quedas que tomamos ocorrem na mente da gente, e parece simples, mas não é fácil de contorná-las. O que fica é que para botarmos estas estratégias em curso, precisamos de conhecimento. E conhecimento vêm de lições socializadas. Lições que a gente também aprende no Aikido, mas que no fervo das coisas a gente subestima.

E falando fazer bem feito, esta semana surgem novidades. E recebo o convite oficial para o exame. A vida segue.

Eu me questiono até que ponto isso é dominar a sua mente e superar as dificuldades ou tudo isso é uma forma besta de racionalizar psicologicamente e guardar o teu fracasso numa gaveta na tua cabeça. Uma hora, explode.

Enquanto não tenho resposta para isso, estou em paz comigo mesmo, até a próxima queda, que é inevitável.

Meus votos de que a vida lhe reserve quedas e superações, e que essas histórias possam servir de incentivo ao próximo. Compartilhe. Fortaleça.

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