terça-feira, 10 de maio de 2011

Sobre gatos selvagens, temperamentos difíceis e o amor

Betezui

Em fevereiro, uma gata selvagem teve dois filhotes no telhado do dojo. Escutava os miados, mas não tinha acesso, comecei a deixar ração e água, e os potes amanheciam sempre vazios, embora eu não os visse. Numa noite, durante o treino, os gatos literalmente despencaram do telhado no jardim ao lado do dojo, ao qual só temos acesso por janelas basculantes. Primeiro caiu um, depois o outro, e em seguida desceu a mamãe, ela mesma ainda uma filhote, me fazendo um fuzz assustador.


Ficaram por ali, comecei a alimentá-los a contragosto da proprietária, que não gosta de gatos. Prometi à ela que vou pegá-los. Tivemos dois meses de alegrias, os filhotes comendo, entrando e saindo do dojo cheios de medo, não me deixando chegar perto. Todos nós começamos a nos envolver com eles, discussões sobre como pegá-los, desencorajamentos, porque todo mundo sabe que gatos de rua tem esse temperamento difícil. Cenas lindas, os três, filhotes e mamãe brincando no jardim, crescendo fortes e saudáveis.


Crise de consciência, porque a mamãe é amorosa, sempre perto deles, tenho pena de separá-los.

Até que um dia decidi: coloquei uma caixa de gatos com whiskas sachet dentro, que todos os gatos adoram, os filhotes entraram, eu os trouxe para a área de serviço da minha casa. Momentos de total selvageria, se atiraram nas janelas, desesperados para fugir.

Desisto de pegar a mamãe, ela é muito arisca.

No outro dia, com uma ajuda preciosa da Cris, que tem uma mente mais forte do que qualquer gata selvagem, levamos os filhotes para castração, e surpresa: são duas fêmeas, achávamos que um era macho.

Agora sim elas estão completamente intratáveis. Basta entrar ali e elas me fazem um FUZZZ raivoso.

A Lia Claudia, sempre pragmática, me disse: Elas viviam felizes e contentes num jardim lindo, com a mãe, são levadas dali, cortadas, trancafiadas num quarto, como vão ficar felizes?

Mergulhei num profunda reflexão, sobre o que parece felicidade, mas na verdade acarreta dor. A mamãe, dois dias depois que levei os filhotes, apareceu no jardim... namorando um gatão lindo, um correndo atrás do outro, e isso parece realmente a suprema felicidade. Com a conseqüência de que logo teremos novos filhotes e mais sofrimento. Então, o que parece a felicidade suprema é na verdade um baita sofrimento.

Humanos são também assim, muitas vezes recusamos ferozmente a verdadeira felicidade porque isso implica em um certo desconforto e disciplina, e nos atiramos nas ilusões, que nos prometem uma felicidade que é passageira, e que só vai trazer sofrimento.

Saí das minhas reflexões, porque os filhotes se recuperam, comem e fazem muito cocô, e comecei a penosa tarefa de tornar-me amiga delas. Não vai ser fácil. Tem uma pessoa que quer adotá-las, mas duvido que alguém tenha tanta paciência.

Não gostamos das coisas difíceis. Queremos tudo pronto, confortável e sem muito trabalho. Queremos pessoas legais perto da gente, amantes gentis e descomplicados, filhos serenos, gatos mansos, enfim, queremos só vida boa.

Reflexões de novo: lembro das crianças de temperamento complicado, dos adultos também complicados, que se defendem fortemente de tudo, que não respondem a quase nada, nem palavras delicadas nem grosseiras, (lembro também de mim, quando me fecho e bloqueio a vida), e decido que se essas gatas despencaram do telhado bem na minha frente, eu faço parte da vida delas e vou encarar essa.

Fiquei ali olhando pra elas, que estão indignadas comigo, embora eu lhes aqueça, dê comida, água, fale e deseje o melhor pra elas, tentando sentir como conquistá-las.

Fui adotada por duas gatas, também de rua, faz três anos. A força de meditar, conversar, dormir juntas, elas são muito amigáveis e dóceis. Mas são gatas, com unhas em forma, e personalidades fortes. Penso em juntar todas, mas me dá medo do enrosco.

Enquanto reflito, sentada ali, as selvagens me olhando furiosas, mexo com um barbante e um pedaço de papel, e surpresa, uma delas, a menos braba, desce da janela e vem brincar com o barbante. Fiquei ali algum tempo, ela correndo atrás do barbante. A outra escondida e fazendo FUZZZ....

Brincar pode ser a solução....

Hoje, para minha surpresa, a arisca também desceu e veio brincar. Não chego ainda a tocar nelas, me ameaçam com toda força de suas unhas e dentes, apenas brincam perto de mim.

Mesmo os temperamentos irascíveis podem responder aos bons tratos e ao amor, mas é demorado. E sem garantias de sucesso. É muito difícil, percebo em mim, ser generoso sem esperar nada em troca. Nesse caso, só recebo muito cocô e muitos FUZZZZZZ....Se bobear, levo umas arranhadas.

Não é muito diferente com os humanos. Das experiências que tive com temperamentos complicados, (incluindo o meu), atrás de toda essa defesa feroz, existe uma enorme sensibilidade e amor. Apenas estamos nos defendendo de sofrer.

Mas se acontecer um momento certo, o coração se abre, e o que era sofrimento, se transforma em alívio e cooperação.

O que essas selvagens estão me ensinando, é que: decisão irrevogável de amar, não esperar nada em troca, e brincar com nossas dores, sem levar tudo muito a sério, pode ser um caminho para a felicidade.

E tudo isso me remete ao processo de aprendizagem do Aiki.